Do intercâmbio à formação de atletas: o projeto que quer transformar o Pará em um polo do Muaythai brasileiro
Durante muitos anos, quem praticava Muaythai no Pará e em boa parte da região Norte precisou conviver com uma distância que ia muito além...

Durante muitos anos, quem praticava Muaythai no Pará e em boa parte da região Norte precisou conviver com uma distância que ia muito além dos quilômetros que separam Belém dos principais centros do esporte no país.
Grandes seminários, intercâmbios com treinadores de referência, camps e eventos profissionais de maior estrutura quase sempre aconteciam longe. Havia atletas, professores, equipes e interesse pelo Muaythai na região. O que faltava era ampliar as oportunidades de intercâmbio, formação e competição sem que, para isso, fosse sempre necessário viajar milhares de quilômetros.
Nos últimos anos, uma sequência de iniciativas começou a tentar mudar esse cenário.
Primeiro vieram grandes seminários. Depois, camps e intercâmbios com profissionais ligados diretamente ao cenário nacional e à Tailândia. Em seguida, Belém recebeu um evento de lutas com atletas de diferentes estados. Agora, um novo projeto busca construir uma base competitiva permanente para o desenvolvimento de atletas, treinadores e árbitros paraenses.
Por trás da articulação dessas iniciativas está Ernani Aliverti, professor e praticante de artes marciais que transformou uma inquietação antiga em um projeto de longo prazo para o Muaythai no Pará.
Formado professor e grau preto pelo Mestre Canela, atualmente residente em Manaus, Ernani pratica artes marciais desde a adolescência e acompanhou de perto as dificuldades enfrentadas por quem buscava se desenvolver no esporte a partir da região Norte.
Foi dessa experiência que surgiu uma convicção: se o Pará quisesse ampliar sua presença no cenário nacional, seria necessário não apenas enviar atletas para fora, mas começar a criar oportunidades dentro do próprio estado.
“Eu sentia no meu coração que Belém, o Pará e a região Norte precisavam ocupar o seu espaço no cenário nacional. A gente precisava ser visto, mas, acima de tudo, precisava se profissionalizar cada vez mais”, conta.
Essa ideia acabaria se transformando em uma sequência de projetos.

O primeiro grande teste
Em abril de 2025, aconteceu o primeiro grande passo dessa construção: a realização, em Belém, de um seminário com o Mestre Rangel Farias.
O resultado revelou uma demanda maior do que se imaginava.
Cerca de 170 pessoas participaram do encontro, incluindo atletas e professores de Belém, cidades do interior do Pará e estados como Amazonas, Amapá, Ceará e Maranhão.
Mais importante que o número, porém, foi o que aconteceu dentro do espaço.
Equipes diferentes, muitas delas acostumadas a seguir caminhos independentes, estavam reunidas em torno do mesmo objetivo: aprender.
O seminário também produziria uma conexão importante para o que viria depois.
Ao final do evento, Rangel Farias colocou Ernani em contato, por chamada de vídeo, com Pedro Rodrigues, treinador com anos de vivência na Tailândia e responsável pelo trabalho de Muaythai da RFA.
Rangel fez uma sugestão direta: se a intenção era contribuir para o desenvolvimento do esporte no Pará, Pedro deveria conhecer Belém.
Poucos meses depois, a ideia virou projeto.
Entre agosto e setembro daquele ano, Pedro desembarcou na capital paraense para um camp de dois dias, com atividades pela manhã e pela tarde. O formato era mais restrito do que o seminário anterior e reuniu aproximadamente 80 pessoas.
A importância daquele encontro, entretanto, estava também nas conexões que começavam a ser criadas.
A relação com Pedro aproximou Belém de uma rede de profissionais que circulava entre os grandes centros do Muaythai brasileiro e a Tailândia.
Durante o camp, Pedro e Lipão convidaram Ernani para participar de uma imersão em Florianópolis ao lado de nomes como Pedro Novaes e Léo Elias.
Ernani decidiu ir.
A viagem seria determinante para o próximo passo.
A IFX transforma uma sequência de eventos em projeto
À medida que novas possibilidades surgiam, ficou evidente que os eventos não poderiam depender apenas de iniciativas isoladas.
Era necessário construir uma identidade.
Mais do que isso: uma estrutura que pudesse trabalhar com atletas e professores independentemente de equipe, federação ou bandeira.
Em conversas com Moisés Neto e Samuel Paiva surgiu a ideia da IFX.
Inicialmente pensada como produtora e organizadora de eventos, a IFX nasceu com uma proposta essencialmente agregadora: trazer para Belém experiências que normalmente exigiriam que atletas e treinadores da região viajassem milhares de quilômetros para encontrá-las.
A imersão em Florianópolis ajudou a acelerar esse processo.
Durante cinco dias, Ernani acompanhou de perto profissionais inseridos no alto rendimento, ampliou contatos e começou a construir novas possibilidades de intercâmbio para o Pará.
Foi nesse ambiente que conseguiu articular a ida de Léo Elias e Kiewpayak para Belém.
E foi também ali que surgiu uma ideia mais ambiciosa:
“Vou fazer três dias de Tailândia em Belém.”
O conceito era reunir, em uma única programação, profissionais com experiência e conexão direta com algumas das principais referências do Muaythai.
O projeto ganhou forma com Léo Elias, Kiewpayak, Pedro Rodrigues e Pedro Novaes.
Na sexta-feira e no sábado, Pedro Rodrigues e Pedro Novaes conduziram as atividades. No domingo, Léo Elias e Kiewpayak assumiram o seminário.
Ao longo dos três dias, mais de 400 pessoas passaram pelo evento, segundo a organização.
Participantes viajaram de Manaus, Macapá, Fortaleza, São Luís, Acre, Tocantins, cidades do interior paraense e diferentes pontos da Região Metropolitana de Belém.
Novamente, equipes de diferentes bandeiras estavam reunidas no mesmo ambiente.
A experiência representava uma mudança de escala.
Belém já havia demonstrado capacidade para receber um grande seminário. Agora, sustentava vários dias de programação envolvendo algumas das principais referências que circulavam pelo Muaythai brasileiro.
Mas o projeto ainda estava concentrado principalmente em formação e intercâmbio.
Faltava uma peça importante: a competição.
De um café nasce a possibilidade do Thai Norte em Belém
A oportunidade começou a aparecer durante a organização da passagem de Léo Elias por Belém.
Ernani entrou em contato com Dindô Mahmoud para resolver parte da logística entre Manaus e a capital paraense. Dindô acabou acompanhando a viagem.
Durante um café, Dindô revelou que havia aproveitado a oportunidade também porque queria conhecer pessoalmente o organizador paraense que estava movimentando aqueles projetos.
A conversa continuou depois do seminário, no hotel.
Ernani apresentou as ideias que vinha desenvolvendo e falou sobre um objetivo que começava a ganhar cada vez mais importância: criar oportunidades para que atletas paraenses pudessem enfrentar competidores de outras regiões e mostrar nacionalmente o nível técnico produzido no Norte.
Dindô apresentou então o Thai Norte, projeto que já vinha sendo realizado em Manaus, explicando sua estrutura, a relação com o Portuários Stadium, o formato de GP e o trabalho de capacitação da arbitragem.
A resposta veio imediatamente:
“Dindô, é isso que eu quero trazer para Belém.”
O acordo começou com um aperto de mãos no saguão daquele hotel.
Transformá-lo em realidade, no entanto, exigiria um novo nível de organização.
Até aquele momento, Ernani já havia acumulado experiência com seminários e camps. Produzir um evento de lutas significava lidar com outro universo: card, atletas, pesagem, arbitragem, estrutura, público, cronograma e todas as engrenagens necessárias para colocar um evento profissional em funcionamento.
A decisão foi aprender durante o processo.
O Thai Norte começa a ganhar forma
Pouco depois, um convite de Vanessa, da One Way, levou Ernani a uma imersão com Léo Elias na Arena Max, em São Paulo.
A viagem também serviu para consolidar o projeto do Thai Norte em Belém.
Cercado por nomes como Dindô Mahmoud, Leandro Longo, Pedro Rodrigues, Pedro Novaes e outros profissionais do cenário nacional, Ernani participou da gravação da primeira chamada oficial da edição paraense.
Aquilo que semanas antes havia começado em uma conversa dentro de um hotel estava oficialmente lançado.
A resposta dos atletas veio rapidamente.
Nas primeiras 24 horas após a abertura das inscrições, mais de 50 competidores já haviam se cadastrado.
Mas, durante a construção do evento, outra percepção começou a modificar o projeto.
O Thai Norte não deveria apenas trazer grandes nomes para Belém.
Precisava mostrar quem já estava aqui.
Ernani e Dindô começaram então a visitar academias da capital.
Equipe por equipe.
O objetivo era conhecer os atletas, registrar suas histórias, ouvir treinadores e apresentar ao público as pessoas que entrariam naquele ringue.
A chancela do evento e a presença de nomes reconhecidos nacionalmente continuavam importantes, mas o atleta paraense começava a ocupar definitivamente o centro da proposta.
“Meu sonho, minha obsessão, era colocar aqueles meninos para lutar fora do estado, provando a capacidade e o nível técnico do Pará para o Brasil inteiro.”
Ao mesmo tempo, confrontos começaram a ser articulados para promover um intercâmbio real entre atletas e equipes.
Polônia, de Manaus, foi colocado diante de Bruno Sá, atleta ligado ao trabalho de Rangel Farias. Outro confronto colocou Sagaz, atleta de Pedro Novaes, diante de Ceifador, um dos jovens nomes que vinham ganhando destaque no cenário paraense.
O intercâmbio que havia começado nos seminários chegava agora ao ringue.
Um evento para mudar referências
O Thai Norte Belém também carregava outro desafio: elevar a referência de organização dos eventos realizados localmente.
Durante muito tempo, parte do público paraense se acostumou com eventos de luta marcados por atrasos e limitações estruturais.
A proposta era entregar uma experiência diferente.
O evento foi realizado em ambiente climatizado, com maior preocupação com horários, conforto do público, atletas e organização.
O card reuniu nove lutas profissionais considerando o GP, duas disputas de cinturão, além de combates semiprofissionais e amadores.
Nomes como João Fernandes, Eric, Rangel Farias, Pedro Rodrigues, Pedro Novaes e Dindô estiveram presentes.
Mais do que um evento isolado, o Thai Norte Belém consolidava uma etapa de um processo iniciado pouco mais de um ano antes.
Primeiro vieram os seminários.
Depois, os camps.
Em seguida, os grandes intercâmbios.
Agora, atletas do Pará compartilhavam um evento com competidores e profissionais vindos de outros estados.
A experiência, porém, também evidenciou qual deveria ser o próximo desafio.
Não bastava criar grandes momentos.
Era necessário construir continuidade.
Nasce o Pará Stadium
Durante a própria construção do Thai Norte começou a surgir a ideia de um projeto permanente voltado principalmente para a formação de atletas.
Nascia o Pará Stadium.
A lógica por trás do projeto parte de uma constatação simples: trazer grandes profissionais e realizar eventos de alto nível movimenta o topo da cadeia, mas o crescimento sustentável do Muaythai paraense depende também de uma base competitiva.
Atletas amadores precisam lutar.
Semiprofissionais precisam acumular experiência.
Árbitros precisam atuar repetidamente para desenvolver consistência.
E treinadores precisam de eventos onde possam testar e desenvolver seus atletas antes de colocá-los nos maiores palcos nacionais.
O Pará Stadium foi pensado para ocupar esse espaço.
A primeira edição está prevista para 22 de novembro de 2026, com atenção especial às categorias amadora e semiprofissional e aos atletas que ainda estão em processo de desenvolvimento.
A intenção é criar um caminho competitivo dentro do próprio estado.
Um jovem poderá iniciar no cenário amador, avançar para o semiprofissional, acumular experiência e, posteriormente, chegar mais preparado a organizações maiores dentro e fora do Pará.
Nesse modelo, os grandes eventos deixam de ser acontecimentos isolados e passam a fazer parte de uma estrutura.
Seminários ajudam a formar. Camps aprofundam o conhecimento. Eventos de base desenvolvem atletas. Grandes competições oferecem a eles uma vitrine.
É essa engrenagem que a IFX pretende ajudar a construir.
De estado que envia atletas a destino para competidores
Existe ainda uma mudança de perspectiva por trás do projeto.
Historicamente, para buscar determinadas experiências, o atleta paraense precisou sair do estado.
Viajar para competir.
Viajar para treinar.
Viajar para participar de camps.
Viajar para encontrar grandes referências.
Os projetos desenvolvidos nos últimos anos tentam inverter parte desse fluxo.
A ambição é que Belém não seja apenas uma cidade de onde atletas partem em busca de oportunidades, mas também um destino para onde atletas, treinadores e profissionais de outros estados queiram viajar.
Isso significa criar eventos capazes de atrair competidores de outras regiões, proporcionar confrontos para atletas locais e ampliar a circulação de conhecimento dentro do Pará.
O que antes significava levar um paraense para encontrar o cenário nacional passa também a significar trazer o cenário nacional para encontrar o Pará.
Formação de árbitros e uma estrutura para o futuro
Existe ainda uma área menos visível para o público, mas fundamental para qualquer esporte de combate: a arbitragem.
A construção de um cenário competitivo consistente depende não apenas de atletas e eventos, mas também de profissionais capacitados para atuar neles.
Por isso, o projeto prevê ampliar a qualificação dos árbitros paraenses por meio de cursos, intercâmbios e oportunidades práticas de atuação.
Entre os objetivos está formar o primeiro árbitro paraense certificado pela AMTI em Belém e desenvolver a CAP, Comissão de Arbitragem Paraense, fortalecendo uma estrutura local permanente de capacitação e atuação.
A programação de intercâmbios também deve continuar, com novos camps, atividades específicas para professores e presença de profissionais de outros estados em Belém.
Para 2027, a intenção é realizar entre três e quatro edições do Pará Stadium, criando regularidade para que atletas em formação tenham mais oportunidades de competir durante o ano.
A proposta começa, assim, a ultrapassar a organização de eventos.
O objetivo passa a ser a construção de um ecossistema.
As conexões por trás do projeto
Se os atletas e o desenvolvimento do Muaythai paraense ocupam o centro dessa construção, existe alguém trabalhando nos bastidores para conectar boa parte das peças.
Em pouco tempo, Ernani Aliverti passou de professor e praticante de artes marciais a articulador de uma rede que aproximou Belém de diferentes profissionais e projetos do cenário nacional.
Sua trajetória ajuda a explicar como essa estrutura foi sendo formada.
Rangel Farias abriu o primeiro grande caminho.
Pedro Rodrigues ampliou as conexões.
A experiência em Florianópolis aproximou Ernani de uma rede nacional.
Léo Elias, Kiewpayak, Pedro Novaes e outros profissionais chegaram ao Pará.
Moisés Neto e Samuel Paiva participaram da construção da IFX.
A relação com Dindô Mahmoud abriu caminho para o Thai Norte em Belém.
E a experiência acumulada nesses projetos ajudou a dar origem ao Pará Stadium.
Existe uma característica comum a praticamente todas essas etapas: a construção através das conexões.
Equipes diferentes.
Professores diferentes.
Federações diferentes.
Atletas de diferentes cidades e estados.
A visão defendida por Ernani é que o crescimento do Muaythai no Pará depende justamente da capacidade de aproximar essas pessoas e criar oportunidades que, durante muito tempo, pareceram distantes da realidade da região.
“Eu preciso estar onde as coisas acontecem e ampliar constantemente o meu networking”, resume.
Essa frase ajuda a explicar seu papel dentro do projeto.
Ernani foi até onde as coisas estavam acontecendo, construiu relações e começou a criar caminhos para que parte dessas experiências chegasse ao Pará.
Mas o objetivo final não é fazer com que os holofotes permaneçam sobre quem construiu as pontes.
É fazer com que cada vez mais atletas possam atravessá-las.
O próximo passo é fazer a estrutura permanecer
Em pouco mais de um ano, uma sequência de seminários e intercâmbios começou a se transformar em algo maior.
O que nasceu da vontade de aproximar Belém de grandes referências do Muaythai passou por camps, imersões, eventos profissionais e intercâmbios entre estados.
Agora entra em uma fase diferente.
O desafio é transformar acontecimentos em calendário, contatos em oportunidades permanentes e grandes eventos em uma estrutura capaz de desenvolver novas gerações.
O Pará Stadium representa essa tentativa.
A IFX funciona como uma das ferramentas para articulá-la.
Ernani Aliverti ocupa o papel de quem conecta pessoas, projetos e oportunidades.
E, no centro de tudo, está uma ambição que permaneceu a mesma desde o primeiro seminário: criar condições para que o Muaythai produzido no Pará não precise estar fora do estado para ser visto, reconhecido e desenvolvido.
Se esse caminho conseguir se consolidar, talvez a principal transformação não seja simplesmente colocar Belém no mapa dos grandes eventos.
Será fazer com que, quando o Muaythai brasileiro olhar para esse mapa, o Pará já esteja naturalmente nele.