Golpes com inteligência artificial avançam no Muaythai brasileiro e acendem alerta para professores
Um antigo problema, bem conhecido em outros nichos da internet (e em diferentes modalidades esportivas) começa a ganhar cada vez mais espaço..

Um antigo problema, bem conhecido em outros nichos da internet (e em diferentes modalidades esportivas) começa a ganhar cada vez mais espaço no cenário do Muaythai brasileiro: o uso indevido da imagem de profissionais reconhecidos para promover a venda de produtos digitais.
Vídeos divulgados por meio de anúncios patrocinados nas redes sociais utilizam a imagem e até a voz de professores conhecidos no cenário nacional para oferecer cursos, e-books e pacotes de planos de aula destinados a outros professores. Com o auxílio da inteligência artificial, os anúncios podem transmitir a impressão de que esses profissionais estão apresentando, recomendando ou comercializando diretamente os materiais.
O preço é outro elemento que chama a atenção. Por apenas R$ 19,90, o interessado encontra a promessa de adquirir um pacote de estudos associado à imagem de uma referência do Muaythai nacional. Convenhamos: ter acesso ao conhecimento de um grande profissional por menos do que custa uma refeição simples parece uma oportunidade imperdível. Resta saber se o profissional realmente conhece o produto que está sendo vendido em seu nome.
O roubo de imagem para comercializar produtos digitais, entretanto, não é uma novidade brasileira. No exterior, especialmente no universo das artes marciais e dos esportes de combate, já se tornou comum encontrar e-books, bibliotecas de vídeos e materiais de treinamento anunciados com imagens de treinadores e lutadores conhecidos. A expansão da inteligência artificial acrescenta uma nova camada ao problema, permitindo reproduzir vozes e criar vídeos capazes de confundir até mesmo quem acompanha a modalidade.
No Brasil, o crescimento do Muaythai também amplia o mercado consumidor. Mais praticantes, academias e professores representam uma oportunidade legítima para quem desenvolve materiais educacionais. Ao mesmo tempo, esse crescimento atrai pessoas interessadas em explorar a credibilidade construída por terceiros para vender produtos de procedência duvidosa.
O mercado de infoprodutos de baixo valor (low tickets) movimenta quantias expressivas (quase R$ 10 Bilhões em 2025) e trabalha com uma estratégia bastante conhecida: cobrar pouco para estimular a compra por impulso. Afinal, diante de um anúncio aparentemente confiável, muita gente pensa que vale a pena arriscar alguns reais. O problema é que o prejuízo não se resume necessariamente ao valor pago. Há também o risco de fornecer dados pessoais e bancários, realizar pagamentos a vendedores desconhecidos ou adquirir um material que sequer corresponde ao anunciado.
Existe ainda um aspecto que merece atenção: a responsabilidade de quem compra.
A utilização indevida de imagem e voz é responsabilidade de quem pratica o abuso, e a sofisticação da inteligência artificial pode realmente dificultar a identificação de uma fraude. Isso não significa, porém, que o consumidor precise aceitar qualquer oferta sem fazer uma verificação básica. Em muitos casos, alguns minutos de pesquisa podem evitar uma dor de cabeça.
Antes de comprar, é importante conferir se o produto foi divulgado nos canais oficiais do profissional, verificar a autenticidade do perfil e procurar informações sobre quem está por trás da venda. Perfis verificados podem ajudar nessa checagem, embora a ausência do selo não seja prova de fraude e sua presença, isoladamente, não garanta a legitimidade de qualquer anúncio. Também vale consultar o site oficial, observar o endereço da página de pagamento e, na dúvida, entrar em contato diretamente com o profissional.
Outro cuidado importante é não compartilhar ou encaminhar automaticamente esses anúncios. Ao fazer isso sem verificar a origem, o próprio usuário pode acabar ajudando a espalhar a fraude e emprestando credibilidade a uma oferta suspeita.
O Muaythai brasileiro está em expansão, e a profissionalização do ensino passa também pelo acesso a bons materiais de estudo. É natural que professores procurem ferramentas para organizar suas aulas, conhecer novas metodologias e aprimorar o trabalho desenvolvido nas academias. Essa procura, porém, não pode se transformar em terreno fértil para oportunistas.
A inteligência artificial pode ser uma grande aliada da educação e do esporte. O problema não está na tecnologia, mas no uso que se faz dela. Quando uma ferramenta é utilizada para colocar palavras na boca de um professor, simular uma recomendação ou associar sua imagem a um produto sem autorização, a discussão deixa de ser sobre inovação e passa a ser sobre fraude, responsabilidade e proteção do consumidor.
No fim, a regra é simples: não compre por impulso, mesmo quando o preço parece bom demais para deixar passar. Antes de acreditar no vídeo, confira a fonte. Antes de confiar no rosto, confirme a autoria. E antes de pagar R$ 19,90 por um suposto material de estudo aprovado por uma grande referência do Muaythai, descubra se essa aprovação realmente existe.
Porque, na internet, até a voz de um mestre pode ser convincente. Isso não significa que seja ele quem está falando.