Muay Thai não pertence a uma única organização: posição do governo tailandês repercute no cenário brasileiro
O recente posicionamento do Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia sobre a regulamentação internacional do Muay Thai..

O recente posicionamento do Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia sobre a regulamentação internacional do Muay Thai representa um importante avanço no debate sobre a liberdade de atuação das organizações que trabalham com a modalidade em diferentes países, incluindo o Brasil.
Em documento oficial datado de 30 de setembro de 2026, posteriormente divulgado pelo Escritório do Comitê de Boxe da Tailândia, órgão vinculado à Autoridade Esportiva da Tailândia (SAT), o governo tailandês afirmou que nenhuma organização possui autoridade legal exclusiva para controlar todas as atividades relacionadas ao Muay Thai.
Embora a manifestação tenha sido direcionada à Federação Internacional de Associações de Muay Thai (IFMA), seu conteúdo possui relevância para outros países, especialmente aqueles onde diferentes entidades trabalham com a modalidade e enfrentam discussões sobre reconhecimento, representatividade e autonomia.
No Brasil, esse posicionamento merece atenção especial.
Nos últimos anos, dirigentes de algumas organizações brasileiras de Muay Thai têm defendido modelos de centralização administrativa, sustentando que uma única confederação deveria ser responsável por representar ou regulamentar a modalidade em todo o território nacional.
Esse tipo de discurso levanta uma questão fundamental: concentrar o controle do Muay Thai nas mãos de uma única organização realmente contribuiria para o crescimento do esporte no país?
A posição apresentada pelo governo da Tailândia oferece elementos importantes para essa discussão.
Por que o posicionamento da Tailândia é importante para o Muay Thai brasileiro?
O Muay Thai possui características que o diferenciam de diversas outras modalidades esportivas.
Além de ser uma arte marcial e esporte de combate, o Muay Thai é uma manifestação cultural tailandesa que se desenvolveu internacionalmente por meio de academias, professores, promotores de eventos, organizações profissionais, entidades amadoras e diferentes sistemas de competição.
No Brasil, esse crescimento também ocorreu por meio do trabalho de diversos grupos que, ao longo de décadas, ajudaram a popularizar a modalidade em diferentes regiões.
Academias independentes, professores, federações, confederações, promotores de eventos e organizações internacionais contribuíram, cada um à sua maneira, para construir o cenário nacional.
Essa diversidade permitiu que o Muay Thai alcançasse públicos diferentes, desenvolvesse novos atletas, criasse oportunidades profissionais e ampliasse sua presença no mercado esportivo brasileiro.
O posicionamento tailandês reforça justamente a importância de reconhecer que o desenvolvimento da modalidade não depende necessariamente da existência de uma única organização responsável por todas as suas atividades.
No entendimento apresentado pelo Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia, diferentes entidades podem desempenhar funções legítimas na promoção do Muay Thai, desde que respeitem suas respectivas competências e as legislações aplicáveis.
Para o Brasil, esse entendimento fortalece o argumento de que a pluralidade de organizações pode ser um elemento positivo para o crescimento da modalidade.
A tentativa de centralizar o Muay Thai em uma única confederação no Brasil
Ao longo dos últimos anos, o cenário brasileiro do Muay Thai tem convivido com discursos de dirigentes que defendem a centralização da representação da modalidade.
Em determinadas propostas e posicionamentos, a ideia de uma confederação única aparece como solução para organizar, padronizar e regulamentar o esporte no país.
A existência de uma entidade nacional de representação, por si só, não constitui um problema. Organizações esportivas podem estabelecer sistemas próprios de competição, critérios de filiação e estruturas administrativas para seus integrantes.
A preocupação surge quando esse modelo passa a ser apresentado como uma possível exclusividade sobre toda a modalidade, restringindo ou deslegitimando o trabalho de outras organizações.
É necessário distinguir o reconhecimento de uma confederação dentro de determinado sistema esportivo da pretensão de exercer controle sobre todas as atividades de Muay Thai realizadas no Brasil.
Uma federação pode possuir reconhecimento internacional dentro de sua estrutura e, ainda assim, não representar necessariamente todos os segmentos da modalidade.
O Muay Thai profissional, o amador, o recreativo, o educacional e o cultural possuem características diferentes, que não devem ser desconsideradas em nome de um modelo único de administração.
Concentrar essas diferentes atividades em uma única estrutura poderia limitar a diversidade de projetos e reduzir as alternativas disponíveis para atletas, treinadores, academias e promotores.
O Brasil não precisa reproduzir modelos de controle incompatíveis com a realidade do Muay Thai
Um dos pontos mais relevantes do posicionamento tailandês está justamente na distinção entre as estruturas do Muay Thai amador ligado ao Movimento Olímpico e a indústria profissional e cultural da modalidade.
O governo da Tailândia reconhece a importância da IFMA no desenvolvimento do Muay Thai amador, mas sustenta que esse reconhecimento não concede à federação autoridade exclusiva sobre competições profissionais, atividades comerciais ou iniciativas de promoção cultural.
Essa distinção é particularmente importante para o Brasil.
Caso surjam, no futuro, propostas legislativas ou medidas administrativas destinadas a concentrar a regulamentação do Muay Thai em uma única confederação, o posicionamento do país de origem da modalidade poderá servir como uma referência relevante para o debate.
Isso não significa que uma manifestação do governo tailandês tenha força jurídica para determinar como o Muay Thai deve ser regulamentado no Brasil.
As atividades esportivas realizadas em território brasileiro estão sujeitas à legislação nacional.
Entretanto, o entendimento apresentado pela Tailândia oferece um argumento institucional importante em favor do respeito às diferentes formas de organização e desenvolvimento do Muay Thai.
Afinal, se o próprio país de origem da modalidade reconhece a necessidade de preservar espaços para diferentes organizações, por que o Brasil deveria adotar um modelo que concentrasse todas as atividades nas mãos de uma única entidade?
A legislação brasileira também reconhece a autonomia das organizações esportivas
A discussão sobre a liberdade das organizações de Muay Thai no Brasil também encontra fundamentos na própria legislação nacional.
A Lei Geral do Esporte, Lei nº 14.597, de 2023, estabelece princípios como autonomia, democratização, descentralização, liberdade e participação.
A legislação reconhece a autonomia das organizações esportivas e prevê liberdade de associação no âmbito nacional e internacional, respeitadas as normas aplicáveis.
O artigo 27 trata da capacidade de autorregulação, autogoverno e autoadministração das organizações esportivas, enquanto o artigo 28 aborda expressamente a liberdade de associação.
Essas disposições são relevantes para o debate sobre a pluralidade institucional do Muay Thai brasileiro.
Naturalmente, a autonomia esportiva não significa ausência de regras, fiscalização ou responsabilidades legais. Também não elimina as competências específicas que determinadas entidades possam possuir dentro dos sistemas esportivos aos quais pertencem.
Ainda assim, a legislação brasileira oferece fundamentos para discutir modelos de desenvolvimento que respeitem a diversidade das organizações e evitem restrições indevidas à atuação de entidades independentes.
Nesse sentido, o posicionamento tailandês e os princípios da legislação brasileira podem contribuir para uma discussão mais ampla sobre o futuro da modalidade no país.
Diferentes organizações representam diferentes oportunidades de crescimento
A diversidade de organizações é frequentemente interpretada como um sinal de divisão dentro do esporte.
Entretanto, essa visão não considera que diferentes entidades podem contribuir para o desenvolvimento do Muay Thai por caminhos distintos.
Uma organização pode concentrar seus esforços na formação de atletas amadores. Outra pode trabalhar com competições profissionais. Algumas desenvolvem projetos sociais, enquanto outras investem na formação de treinadores, na realização de eventos internacionais ou na preservação das tradições culturais da modalidade.
Esses trabalhos não precisam ser necessariamente concorrentes ou incompatíveis.
Pelo contrário, podem se complementar.
A existência de diferentes organizações também cria possibilidades de escolha para atletas, treinadores, academias e promotores de eventos.
Cada profissional pode buscar o sistema de competição, o modelo de formação ou a estrutura organizacional mais adequada aos seus objetivos.
Além disso, a diversidade permite que novas ideias sejam desenvolvidas e que diferentes projetos encontrem espaço para crescer.
O importante não é simplesmente a quantidade de organizações existentes, mas a qualidade, a transparência, a responsabilidade e a contribuição efetiva de cada uma para o Muay Thai.
A pluralidade não deve servir de justificativa para práticas inadequadas ou falta de regulamentação. Ela deve representar oportunidades para que diferentes grupos desenvolvam trabalhos sérios, respeitando normas de segurança, direitos dos atletas e princípios éticos.
Controvérsias envolvendo a IFMA reforçam a necessidade de discutir os limites das federações
O documento divulgado pelo governo tailandês também aborda divergências envolvendo a Federação Internacional de Associações de Muay Thai (IFMA) e sua atuação perante outras organizações.
Segundo o Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia, correspondências enviadas pela federação a instituições esportivas teriam provocado interpretações equivocadas sobre sua autoridade internacional, além de dificuldades para promotores e profissionais que desenvolvem atividades fora de sua estrutura.
O documento menciona ainda denúncias apresentadas na Europa envolvendo alegações de práticas monopolistas, possíveis restrições à organização de competições e suposto abuso de posição dominante.
Essas acusações devem ser tratadas como alegações, pois o material divulgado não apresenta decisões judiciais definitivas que comprovem as irregularidades mencionadas.
Entretanto, os conflitos relatados pelo governo demonstram a importância de discutir os limites de atuação das federações internacionais.
Uma organização reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional desempenha funções relevantes dentro do Movimento Olímpico, mas esse reconhecimento não deve ser confundido automaticamente com a propriedade ou o controle de todas as manifestações de uma modalidade.
No caso do Muay Thai, essa distinção é ainda mais relevante porque sua presença internacional ultrapassa o ambiente das competições olímpicas.
A modalidade possui uma indústria profissional consolidada, um mercado internacional de academias e treinamentos e uma dimensão cultural diretamente relacionada à história e às tradições da Tailândia.
A tentativa de submeter todos esses segmentos a uma única estrutura administrativa é uma questão que precisa ser discutida com responsabilidade.
O reconhecimento olímpico não significa controle sobre todas as atividades do Muay Thai
Outro aspecto importante para o cenário brasileiro é compreender a diferença entre reconhecimento olímpico e autoridade sobre uma modalidade.
A IFMA possui reconhecimento do Comitê Olímpico Internacional, condição relevante para o desenvolvimento do Muay Thai dentro do Movimento Olímpico.
Entretanto, conforme o posicionamento do Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia, esse reconhecimento não representa autoridade legal exclusiva sobre todas as atividades relacionadas ao esporte.
O governo tailandês destaca que organizações profissionais e comerciais possuem formatos próprios de funcionamento.
Entre os exemplos mencionados no documento estão ONE Championship, Thai Fight, Rajadamnern World Series (RWS) e campeonatos mundiais de outras organizações.
Essas atividades compõem uma indústria que não se limita ao modelo de competições amadoras associado ao Movimento Olímpico.
Para o Brasil, a distinção é fundamental.
O reconhecimento de uma federação dentro de determinada estrutura internacional não deve ser utilizado, isoladamente, como argumento para desconsiderar o trabalho de outras organizações que atuam legitimamente no desenvolvimento da modalidade.
O posicionamento da Tailândia pode ser uma referência para o futuro do Muay Thai no Brasil
O documento do Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia surge em um momento importante para a discussão sobre a organização do Muay Thai internacional.
No Brasil, onde diferentes entidades possuem projetos, histórias e áreas de atuação próprias, o posicionamento pode contribuir para evitar que futuras discussões sobre regulamentação sejam conduzidas exclusivamente a partir da ideia de uma confederação única.
A existência de regras e padrões de segurança é essencial para qualquer esporte de combate.
Entretanto, regulamentar uma modalidade não significa necessariamente concentrar toda a sua administração em uma única organização.
É possível estabelecer responsabilidades, promover padrões técnicos, proteger atletas e incentivar a profissionalização sem eliminar a diversidade institucional.
A experiência internacional demonstra que o Muay Thai se desenvolve por diferentes caminhos, desde as competições profissionais até os programas de formação amadora, projetos sociais e atividades culturais.
A participação de múltiplas organizações pode ampliar o alcance dessas iniciativas e oferecer novas possibilidades para o crescimento do esporte.
O posicionamento tailandês não resolve automaticamente eventuais disputas jurídicas ou administrativas existentes no Brasil, mas reforça a importância de que qualquer proposta futura seja discutida com a participação de todos os setores envolvidos.
O futuro do Muay Thai brasileiro deve ser construído por quem trabalha pela modalidade
O Muay Thai brasileiro não foi desenvolvido por uma única instituição.
Sua história foi construída pelo trabalho de inúmeros professores, atletas, treinadores, promotores, academias e organizações que, ao longo dos anos, contribuíram para levar a modalidade a diferentes regiões do país.
Cada grupo desempenhou um papel nesse processo, seja por meio da formação de novos praticantes, da realização de competições, da criação de oportunidades profissionais ou da promoção da cultura tailandesa.
Defender a importância dessa diversidade não significa rejeitar a existência de confederações, federações ou organismos internacionais.
Significa reconhecer que nenhuma estrutura deve ser considerada, automaticamente, superior a todas as demais em todos os segmentos da modalidade.
O futuro do Muay Thai brasileiro depende da capacidade de suas organizações de desenvolver trabalhos consistentes, criar oportunidades, valorizar profissionais e preservar as características que tornam essa arte marcial e esporte de combate tão particular.
Nesse sentido, a manifestação do Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia representa uma referência importante para aqueles que defendem um modelo de desenvolvimento plural, no qual diferentes entidades possam contribuir positivamente para o crescimento da modalidade.
Mais do que uma discussão sobre reconhecimento institucional, o debate envolve a liberdade de atuação de organizações que trabalham diariamente para fortalecer o Muay Thai.
Se o próprio governo do país de origem do Muay Thai defende que nenhuma organização deve exercer controle exclusivo sobre todas as manifestações da modalidade, esse entendimento merece ser considerado com seriedade no Brasil.
O desenvolvimento do Muay Thai não deveria depender da concentração de poder, mas da capacidade de diferentes organizações trabalharem com responsabilidade, respeito e compromisso com o crescimento do esporte.
Afinal, o Muay Thai é maior do que qualquer federação, confederação ou dirigente.
Seu futuro deve ser construído pela contribuição de todos aqueles que trabalham legitimamente para desenvolver a modalidade.
Fontes: Ministério do Turismo e Esportes da Tailândia — posicionamento oficial de 30 de setembro de 2026, divulgado pelo Escritório do Comitê de Boxe da Tailândia, vinculado à Autoridade Esportiva da Tailândia (SAT); Lei Geral do Esporte do Brasil (Lei nº 14.597/2023).